• Professor Elias Santos

“Vendo flores apenas para a felicidade”, diz florista que não vende coroas de flores há 46 anos



A história da florista Francisca da Glória, 70 anos, é tão bonita quanto o desabrochar de uma rosa. Glorinha decidiu aos 9 anos que queria ser florista.

“Passei com minha vó em frente a uma floricultura de um japonês e falei pra ela que queria trabalhar com flores”, lembra.

Quando Glorinha completou 11 anos, a sua avó abriu uma pequena floricultura para ela. Mas o negócio não deu muito certo. Depois, elas abriram outra lojinha e também tiveram que fechar.

Glorinha continuou perseverando, mas a comunidade japonesa dominava o CEASA de SP e facilitava a venda para os próprios japoneses. “Então eu pensei: o jeito é casar com japonês que aí eu vou ter flor à vontade”, confessou. 

E ela casou mesmo, com o Takeo, seu vizinho, que era descendente de japoneses e trabalhava como funileiro. “Ele ia buscar flor pra mim no CEASA, era uma beleza, nunca mais faltou flor na loja”, narrou.

Mas os costumes eram tão rígidos que a família do Takeo rompeu com ele por anos pelo fato de ele se casar com uma brasileira. Tanto é que a primeira filha do casal, Andreia, que assumiu a floricultura, só conheceu a avó paterna quando já tinha 2 anos.

Glorinha vendeu suas primeiras flores na rua e de barrigão. “Eu estava grávida e ia pra frente do farol vender pra ter dinheiro para ir pra maternidade”, disse.


Dificuldades fortaleceram a família e consolidaram o sonho da floricultura


Um dos momentos mais trágicos na vida da família foi quando Takeo sofreu um golpe do sócio na funilaria e perdeu a casa. Foi então que Glorinha puxou o marido para dentro da floricultura.

Quando as coisas começaram a caminhar, Glorinha perdeu uma filha de 1 ano e entrou em uma profunda depressão. Takeo teve que assumir o negócio e deu conta do recado!

“Ele ia no lixo de outra floricultura, desmanchava os arranjos para aprender a fazer porque nunca trabalhou com isso e ficou um profissional que todo mundo queria”, contou Glorinha.

Takeo não está mais com Glorinha, infelizmente veio a falecer. Uma frase do marido que Glorinha gosta muito de lembrar é quando ele dizia, “o bonito está dentro de nós, os galhos secos dão as flores mais bonitas do Ipê e no pé de maracujá murcho está a mais bela flor”.

Coisa linda de ler, gente!

Glorinha vende flores para a felicidade há 46 anos


As dificuldades continuavam, até que uma decisão abriu o caminho do sucesso para Glorinha. Olha só.

Glorinha foi fazer uma entrega de uma coroa de flores para um sepultamento, e chegando lá, encontrou apenas uma esposa velando o corpo do marido em uma situação muito humilde. Glorinha resolveu devolver o dinheiro para a mulher…

“Nunca mais fiz coroa pra quem morreu, e depois disso minha vida foi pra frente. Passei a vender flores só para a felicidade, nunca mais vendi nenhum botão de rosa pra quem já faleceu, isso há 46 anos. Vender flores pra mim é uma grande felicidade, um prazer,  não há tristeza, então vendo só para a felicidade”, disse.

A floricultura começou a ser frequentada por personalidades, como a eterna rainha da TV brasileira, Hebe Camargo. Glorinha revela a flor que tem um aroma parecido com o do perfume que a apresentadora usava.

“Tem uma flor, a Rosa Searosa, que tem o cheiro igual ao perfume que a Hebe usava, e eu sempre lembro dela”, relembra Glorinha.